"Gamificação" maligna: 2012, o fim do mundo dos games ou o ano dos Ratos de Laboratório

Enviado por: Fernando Katayama
24/12/2011 01:26:37 #Gamificação #Fim do Mundo 5 / 0

Fernando Katayama

Da Redação

"Gamificação" (do inglês, "gamification"): conceito melhor compreendido se lido como "gameficação" ou "gueimeficação" e entendido como "jogoficação". Um tipo de sistema que faz indivíduos obterem alto desempenho em tarefas por meio da exploração do prazer da recompensa. É uma tendência que visa incorporar elementos dos jogos de videogame à vida real. Pode ser benigna se aplicada com ética humana devidamente atualizada; e maligna se visar apenas os resultados --em outras palavras, só os lucros, ou seja, algo pior do que o fim do mundo dos games.

Dentro do quadrado de vidro, um Rato de Laboratório fala para outro que passou o ano inteiro levando choque. Sua principal queixa é uma bunda torrada, autoestima muito baixa e falta de vontade para engolir o pedaço de comida que deixam pendurado.

A proposta inicial era uma conta vitalícia no Facebook com o perfil "Rato de Laboratório", participações no lucro do Laboratório e aparições mensais na mídia. O único jeito de ganhar tudo que teria direito após um ano inteiro de trabalho era não discordar, de jeito nenhum; se o fizesse, suas conquistas seriam canceladas para sempre.

O Rato de Laboratório da vez é típico: acorda cedo, toma café da manhã para não passar fome até o almoço, exibe aparência razoavelmente boa, sonha com uma daquelas "rodas" motorizadas para correr sem parar, sexo oposto e... Papéis, muitos papéis para fazer cocô em cima. Com essas características, seria quase impossível não ingressar no Laboratório.

O Laboratório é um lugar limpo, asséptico, bem iluminado, com refeições servidas na hora certa e plano de carreira. Oferece assistência médica e o mais importante: moral para o Rato escolhido diferenciar-se dos demais. Isso porque conseguir uma vaga como essa significa virar um Rato de Laboratório. Soa como música, "R-aaa-to de Laborat-óóó-rio". É, mais ou menos, assim:

Um Rato de Laboratório pode se vangloriar por não caminhar pelas tubulações de esgoto como os demais; por não precisar se espremer entre milhões de outros indivíduos --iguais, exatamente iguais a ele; por ter sempre alguém de olho nele, "s-e-m-p-r-e", nem que seja por mero interesse. É "O Cara", requisitado o tempo todo. Uma espécie de "solução para todos os problemas" em forma de pequena criatura. O mito. Aquele que trará a cura para todas as crises.

Só um pré-requisito apontado no processo seletivo é extremamente angustiante: sujeição absoluta à "gamificação" do tipo maligna.

Essa exigência implica o seguinte: o Rato "gamificado" deve obedecer à sequência de testes do Laboratório ciente do risco de se tornar um viciado, criatura totalmente dependente dos métodos adotados pelo supervisor. Inclui, para se ter uma ideia, sessões de choque em intervalos preestabelecidos, "chances" de queimaduras graves, possibilidade de perda total da audição e da visão e, o pior de tudo, obsessões e tiques nervosos que podem levar ao suicídio. Mas um pequeno adendo é infalível (artimanha perfeita do recrutador): para cada risco existe o prazer da recompensa.

Cada vez que um choque é disparado, um aroma sensualmente agradável toma o ambiente do quadrado de vidro; cada vez que um choque é disparado, uma porção de boa comida é servida em doses ideais; cada vez que um choque é disparado, um leito confortável surge para acomodar seu hóspede; cada vez que um choque é disparado, é tempo de lazer sem hora para terminar; cada vez que um choque é disparado, todas as dores do mundo parecem acabar...

Enfim, o Rato de Laboratório "gamificado" típico não precisa se preocupar com o que vai acontecer com ele: os ganhos prometidos são bons demais para deixar para trás.

Os relatórios dos testes nunca são mostrados ao público. Os futuros candidatos às vagas do Laboratório, assim, só tomam conhecimento dos Ratos "gamificados" bem-sucedidos --seus antecessores-- quando eles já se transformaram em celebridades.

Para que, então, reclamar? Coisa mais desnecessária. É tudo muito simples: o Rato "gamificado" escolhido só precisa trabalhar sonhando com o sucesso vendido pelos seus recrutadores.

Basta aceitar que a vida é um jogo e jogar é a melhor coisa do mundo. Os riscos são sempre os mesmos para qualquer um que entrar na partida. Nunca envelhecer, ser eternizado por meio de uma rede social de amigos que nunca irão excluí-lo da lista, ter o último modelo de roda elétrica para correr sem pausa para descanso e ainda perder peso sistematicamente, vencer, ser reconhecido, conquistar participações no grupo. Do que mais um rato precisaria?

Render-se à "gamificação" do tipo maligna é um dos melhores negócios do século 21. Muitos teóricos que ousam discutir esse conceito de forma pessimista dizem que se trata de uma fórmula fácil para explorar o lado publicitário da vida. Por que tanta chatice? Afinal, ratos, felizmente, não precisam se aceitar simplesmente como ratos e sempre podem se tornar Ratos de Laboratório.

É interessante observar o papel de um Rato de Laboratório "gamificado" na sociedade. Eles podem fornecer, cada vez mais, números precisos sobre o comportamento dos indivíduos apenas se divertindo. Imagine quão importante é planejar uma ação com certezas próximas às absolutas, que diminuem riscos de várias naturezas, jogando!

Disse riscos? Pois, sim. Risco. É para diminuir sua presença --ou varrê-lo permanentemente da Terra-- que os Ratos "gamificados" precisam trabalhar tanto. Ser um Rato de Laboratório "gamificado" é uma função nobre. Um choque aqui, outro ali... Cada pulo de dor ou prazer significa uma estatística. E diversão é algo que nunca falta para eles.

É por isso que o lado maligno da "gamificação" veio para ficar (muito mais do que o seu lado benigno): para dar oportunidade para todos os ratos brilharem, fazerem a diferença e serem diferentes, participarem da construção de um mercado com produtos e serviços perfeitos, acima de tudo divertidíssimos.

Graças a tantas metas a cumprir é que esses Ratos "gamificados" se tornam, quando vitoriosos, perfis de Facebook perfeitos, com milhões (!) de seguidores, participantes dos lucros do Laboratório e alvos de reportagens dos veículos de comunicação. Pensando bem, é o mínimo a garantir para esses indivíduos tão viciados no sistema de recompensas.

Quanto ao Rato de Laboratório da vez... Bem, ele não resistiu aos testes. Mas nada impede que, após quase completar cem por cento de sua "missão", ele ganhe seu lugar ao Sol; diga-se de passagem, participação nos lucros do Laboratório ele teve, e muito (uma cláusula no contrato deixava claro que ele poderia até mesmo dar a vida em nome do bom andamento "gamificado" dos negócios), assim como ganhou as tais aparições frequentes na mídia (para cada resultado relevante, lá estava ele, nos vídeos publicados pela imprensa).

Já seu perfil de Facebook não pôde ser feito a tempo. Resta torcer para que ele seja confundido com algum Rato "gamificado" já eternizado na rede social, tipo outro perfil de Rato de Laboratório com fotinho bonita e tudo mais.

"Gamificação" maligna: em 2012, muitos sucumbirão a ela. Mas esperemos que o mundo dos games --como o conhecemos-- não se renda ao ideal vazio do lucro fácil e consiga resgatar, sempre, a beleza da diversão humana. Se não for o fim do mundo dos games, 2012 pode se tornar o ano dos Ratos de Laboratório "gamificados". Algo um pouco --bem pouquinho-- melhor do que a morte.

lab rat

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gamer14 em 18/01/2012 22:46
(tetando entender este post)
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JT14 em 04/01/2012 09:53
"...2012 pode se tornar o ano dos Ratos de Laboratório "gamificados". Algo um pouco --bem pouquinho-- melhor do que a morte..."

Ahhh, então tá né?...
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Redman em 30/12/2011 12:10
Acho q vou começar a entrar nesse lib quando eu n tiver o q fazer rsrsrs ^^
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iv345543 em 25/12/2011 14:12
dragu disse:
MrGame disse:
Estou confuso, assustado, interessado, admirado e com medo de uma infestação zumbi.
E eu somente li isso. Sinistro o que as palavras fazem.
eu estou confuso,com raiva da escola e querendo intender esse post
também!
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Ash Gabriel em 24/12/2011 19:41
'-'
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A em 24/12/2011 16:58
MrGame disse:
Estou confuso, assustado, interessado, admirado e com medo de uma infestação zumbi.
E eu somente li isso. Sinistro o que as palavras fazem.
eu estou confuso,com raiva da escola e querendo intender esse post
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MrGame em 23/12/2011 21:06
Estou confuso, assustado, interessado, admirado e com medo de uma infestação zumbi.
E eu somente li isso. Sinistro o que as palavras fazem.
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