Uma das mais clássicas máximas do futebol brasileiro diz que ?em time
que está ganhando não se mexe?. Geralmente essas palavras de aviso vão
para os técnicos que, por exemplo, decidem desmontar uma seleção campeã
para fazer testes bizarros ou mostrar uma nova contratação. Faz bem não
estragar uma fórmula de sucesso, mas chega uma hora que a seleção
adversária pára de cair nos mesmos dribles e toques.
A série Pro Evolution Soccer (ou Winning Eleven) da Konami é uma
das mais tradicionais e famosas no mundo da pelota virtual, e desde
suas origens participa de uma disputa ferrenha com a franquia
futebolística rival da EA. FIFA 08, que já passou pela análise da
equipe GameTV, impressionou com ótimos gráficos e jogabilidade simples,
mas que transmitiam toda a emoção do futebol. Apesar das falhas, ele
não deixa de provocar olas e urros na hora do gol. E mesmo se
aproximando cada vez mais em termos de jogabilidade, as mais recentes
edições das duas séries não poderiam parecer mais diferentes: enquanto
FIFA tenta atrair e abrir as portas para todos, PES 2008 dificilmente
vai agradar quem já não era um mestre da bola.
Quem já bateu uma bola na festa futebolística da Konami vai se
sentir jogando em casa. Nesse Pro Evolution Soccer você continua
fazendo papel duplo em campo: com a parte de baixo do corpo o jogador
chuta, toca, cruza, dribla e faz belas jogadas, para nenhum Kaká ou
Cristiano Ronaldo botar defeito. Já com a parte de cima assume o seu
lado técnico, mexendo cada tática nos mínimos detalhes, movimentando
jogadores, mexendo na defesa e deixando os times com a sua cara. Na
nova edição, Pro Evolution Soccer continua sendo um dos simuladores de
futebol mais complexos do mercado. E se por um lado isso alegra os fãs
de longa data da série, tornou ainda mais difícil a chegada dos
novatos.
A grande novidade dessa versão, anunciada como carro-chefe antes do
jogo chegar às lojas, é o sistema chamado Teamvision. Em teoria, ele
faria as partidas se tornarem muito mais realistas, com jogadores mais
ativos, mais inteligentes e que se adaptariam a cada situação no campo.
Mas na hora do vamos ver, isso é o equivalente a dar uma bicicleta só
para evitar que a bola saia para escanteio: a nova defesa
?inteligente?, por exemplo, se posiciona como se estivesse em um
clássico Solteiros versus Casados. E não importa se você esteja
controlando a seleção brasileira ou um time da divisão Z da Arábia
Saudita. Existem horas em que os seus zagueiros e meio de campo
simplesmente somem da tela ? eles se espalham no canto e deixam o meio
livre para qualquer atacante mais ligeiro... e desses tem de sobra.
Para atenuar esse problema, é possível segurar um dos botões para
?forçar? um dos defensores a partir para cima do oponente que estiver
com a bola. E francamente, esse é o único jeito de fazer a zaga
funcionar de verdade. Sem contar erros grotescos dos goleiros, que
agora deixam a bola passar impune com uma freqüência assustadora. O
ataque do computador, por outro lado, é rápido, forte e cruel como um
chute de voleio na boca do gol. Mesmo com todas as opções de
personalização disponíveis, a nova inteligência artificial pode tornar
uma partida de um jogador extremamente frustrante.
Em comparação com os campeonatos anteriores, a edição 2008 do jogo
foge de Pro Evolution Soccer 2007 e se iguala mais à versão antes
dessa. As partidas estão ligeiramente mais rápidas, tirando um pouco da
sensação de simulação realista, mas em contrapartida os toques de bola
e movimentação dos jogadores parecem mais próximos aos da vida real.
Simulação sempre foi o forte de Winning Eleven, e nesse aspecto a
equipe do diretor Shingo Takatsuka acertou em cheio mais uma vez.
Como não poderia deixar de ser, o grande astro é o modo Master
League, no qual além de vencer as partidas, você precisa se preocupar
em gerenciar seu próprio time, comprar jogadores, mudar táticas e
personalizar tudo que quiser ? sem a profundidade de um Championship
Manager, mas com seus próprios atrativos. Aqui as coisas também
continuam bem parecidas com as versões anteriores, com exceção de
detalhes estéticos. Agora entre uma partida e outra o seu time pode
realizar uma conferência de imprensa, e aí o novo jogador contratado
responderá as perguntas dos repórteres com direito a reprodução de toda
a cena, como num RPG, mas sem muito impacto prático. Fora isso, nada do
que não tenha sido testado e aprovado (e cansado) nos últimos anos.
Na hora de olhar a tabela e ver quem foi campeão, o resultado geral
de Pro Evolution Soccer 2008 desanima. Tudo parece reciclado de versões
anteriores sem muito cuidado, e os gráficos dignos do começo da vida do
PlayStation 2 também não ajudam. Ele ainda pode agradar os boleiros
hardcore, mas enquanto FIFA tenta evoluir para algo mais, a série da
Konami está parada na banheira, esperando um toque milagroso para
marcar seu gol. Cartão amarelo: na próxima a EA pode levar a melhor.